“Eu não pensava em mim, mas pensava neles”: Mulheres Negras, Cuidado e Violência Armada do Estado

Autores

  • Aryanne Pereira de Oliveira e Oliveira Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
  • Cristiane Batista Andrade Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP)
  • Amana Rocha Mattos Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

DOI:

https://doi.org/10.70860/ufnt.rbec.e20504

Resumo

O artigo discute como a violência armada do Estado brasileiro funciona como uma prática eugênica, atingindo de forma direta e indireta a população negra, especialmente as mulheres negras. As autoras argumentam que o cuidado exercido por essas mulheres é uma estratégia de resistência e sobrevivência diante do racismo estrutural, da necropolítica e da precarização da vida. O texto aborda a construção social do gênero, mostrando como o patriarcado e o racismo científico marginalizam as mulheres negras, relegando a elas o papel de cuidadoras e submetendo-as a sobrecarga, medo constante e sofrimento psíquico. A partir de entrevistas com mulheres negras moradoras de favelas do Rio de Janeiro, o texto evidencia que o cuidado vai além das tarefas domésticas, sendo também um gesto político e subversivo. Apesar das práticas eugênicas e do sofrimento imposto, essas mulheres desenvolvem estratégias de proteção e resistência, criando possibilidades de existência para suas famílias, mesmo sob ameaça constante. O cuidado, nesse contexto, é tanto resposta à violência quanto afirmação da vida negra, mostrando a potência e a centralidade das mulheres negras   na   luta   por   dignidade   e   sobrevivência.

 

Palavras-chave:    cuidado,     violência     armada    do    estado, racismo, mulheres negras.

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Biografia do Autor

Aryanne Pereira de Oliveira e Oliveira, Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

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Cristiane Batista Andrade, Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP)

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Amana Rocha Mattos, Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

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Publicado

2026-03-17

Como Citar

Oliveira, A. P. de O. e, Andrade, C. B., & Mattos, A. R. (2026). “Eu não pensava em mim, mas pensava neles”: Mulheres Negras, Cuidado e Violência Armada do Estado. Revista Brasileira De Educação Do Campo, 11, e20504. https://doi.org/10.70860/ufnt.rbec.e20504

Edição

Seção

DOSSIÊ: EPISTEMOLOGIAS DECOLONIAS, AFRICANIDADES, SAÚDE E SABERES E FAZERES ANCESTRAIS