Nem médico e nem pajé: a educação em saúde na prática de indígenas psicólogas(os)
DOI:
https://doi.org/10.70860/ufnt.rbec.e20641Resumo
Este artigo analisa as possibilidades de aproximação entre a psicologia, as cosmologias e as medicinas indígenas a partir da prática de indígenas psicólogas(os) que atuam na saúde indígena, buscando compreender como constroem uma atenção psicossocial etnicamente diferenciada junto aos povos com os quais trabalham. Parte-se da crítica ao caráter colonial, biomédico e tecnicista da psicologia hegemônica e da necessidade de sua reinvenção diante das realidades indígenas, considerando os desafios colocados à atuação profissional nos territórios. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa de campo, com aproximação entre a Psicologia Social Crítica e a etnografia, realizada por meio de entrevistas semiestruturadas com indígenas psicólogas(os) inseridos na saúde indígena, analisadas a partir do materialismo histórico-dialético. Os resultados demonstram que a psicologia, em sua atuação junto aos povos indígenas, precisa se constituir como prática fundamentada no respeito, comprometida com a valorização das cosmologias e medicinas indígenas, superando perspectivas classificatórias, patologizantes e coloniais. A educação em saúde, assim, se constitui como ferramenta central nesse processo, permitindo a construção de pontes interculturais entre a biomedicina, a psicologia e os saberes tradicionais, além de possibilitar que as(os) psicólogas(os) se façam compreendidas(os) pelas comunidades. Conclui-se que a atuação dessas(es) profissionais produz uma prática da psicologia indigenizada, construída através da ação, na escuta, na convivência e na valorização dos modos indígenas de produzir saúde, fortalecendo sua autonomia e a defesa de seus direitos.
Palavras-chave: psicologia, povos indígenas, saúde indígena, medicinas indígenas, educação em saúde.
Neither Doctor nor Shaman: Health Education in the Practice of Indigenous Psychologists
ABSTRACT. This article examines the possibilities of rapprochement between psychology, Indigenous cosmologies, and Indigenous healing systems through the work of Indigenous psychologists engaged in Indigenous health care. It seeks to understand how they construct an ethnically differentiated psychosocial approach with the communities they serve. The analysis begins with a critical perspective of the colonial, biomedical, and technicist character of traditional psychology and argues for its reinvention in light of Indigenous contexts and the challenges of professional practice in Indigenous territories. Methodologically, this is a field study that brings together Critical Social Psychology and ethnography. Data were collected through semi-structured interviews with Indigenous psychologists working in Indigenous health services and analyzed using a historical-dialectical materialist framework. The findings indicate that psychological practice with Indigenous communities must be grounded in respect and committed to valuing Indigenous cosmologies and healing systems, moving beyond classificatory, pathologizing, and colonial approaches. In this context, health education emerges as a central tool for building intercultural bridges among biomedicine, psychology, and traditional knowledge, while also enabling psychologists to be understood within the communities. The study concludes that these professionals are developing an “Indigenized” psychology through practice, rooted in listening, coexistence, and the recognition of Indigenous ways of producing health, thereby strengthening autonomy and the defense of Indigenous rights.
Keywords: psychology, indigenous communities, indigenous health, indigenous healing systems, health education.
Ni médico ni curandero: la educación para la salud en la práctica de indígenas psicólogas(os)
RESUMEN. Este artículo analiza las posibilidades de acercamiento entre la psicología, las cosmologías y las medicinas indígenas a partir de la práctica de psicólogos y psicólogas indígenas que trabajan en el ámbito de la salud indígena, con el objetivo de comprender cómo construyen una atención psicosocial étnicamente diferenciada junto a los pueblos con los que trabajan. Se parte de una crítica al carácter colonial, biomédico y tecnicista de la psicología hegemónica y de la necesidad de su reinvención ante las realidades indígenas, teniendo en cuenta los retos que plantea la práctica profesional en los territorios. Desde el punto de vista metodológico, se trata de una investigación de campo, con un enfoque que combina la psicología social crítica y la etnografía, realizada mediante entrevistas semiestructuradas con psicólogos y psicólogas indígenas que trabajan en el ámbito de la salud indígena, analizadas desde el materialismo histórico-dialéctico. Los resultados demuestran que la psicología, en su actuación junto a los pueblos indígenas, debe constituirse como una práctica fundamentada en el respeto, comprometida con la valorización de las cosmologías y medicinas indígenas, superando las perspectivas clasificatorias, patologizantes y coloniales. La educación en salud se constituye, así, como una herramienta central en este proceso, permitiendo la construcción de puentes interculturales entre la biomedicina, la psicología y los saberes tradicionales, además de hacer posible que las y los psicólogos sean comprendidos por las comunidades. Se concluye que la actuación de estos profesionales da lugar a una práctica de la psicología indigenizada, construida a través de la acción, en la escucha, en la convivencia y en la valorización de los modos indígenas de producir salud, fortaleciendo su autonomía y la defensa de sus derechos.
Palabras clave: psicología, pueblos indígenas, salud indígena, medicinas indígenas, educación para la salud.
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