Psicologia Comunitária e cuidado coletivo diante das violências estruturais em territórios indígenas

Autores

  • Bruna Leticia Lemes de Lima Universidade Comunitária da Região de Chapecó- Unochapecó https://orcid.org/0009-0009-9434-1343
  • Cláudia Battestin Universidade Comunitária da região de Chapecó – Unochapecó,Universidade Comunitária da região de Chapecó – Unochapecó https://orcid.org/0000-0001-7871-9275

DOI:

https://doi.org/10.70860/ufnt.rbec.e20620

Resumo

O estudo investiga as contribuições da Psicologia Comunitária na promoção da coesão social, da saúde coletiva dos povos indígenas do Oeste de Santa Catarina, especialmente Guarani e Kaingang, diante das violências estruturais e históricas documentadas pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) entre os anos de 2022 e 2024. O objetivo é analisar como práticas comunitárias podem enfrentar tais violências e fortalecer a autonomia e o protagonismo das comunidades. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter documental e bibliográfico, que articula revisão de literatura e análise dos relatórios do CIMI. Os resultados indicam a recorrência de violências como agressões físicas, feminicídios, exploração territorial e trabalho análogo à escravidão, impactando dimensões sociais, culturais e espirituais das comunidades. Conclui-se que a Psicologia Comunitária, ao adotar abordagens participativas, interculturais e decoloniais, contribui para o fortalecimento de espaços coletivos de decisão, como assembleias e rodas de conversa, configurando-se como prática de cuidado, resistência e valorização cultural, fundamental para o enfrentamento das desigualdades e violências.

Palavras-chave: psicologia comunitária, povos indígenas, violência estrutural, cuidado coletivo.

 

Community Psychology and Collective Care in the Face of Structural Violence in Indigenous Territories

ABSTRACT. This study investigates the contributions of Community Psychology to the promotion of social cohesion, collective health, and the valorization of ancestral knowledge among Indigenous peoples in Western Santa Catarina, particularly the Guarani and Kaingang, in the face of structural and historical violence documented by the Indigenous Missionary Council (CIMI) between 2022 and 2024. The objective is to analyze how community-based practices can address such violence and strengthen the autonomy and agency of these communities. This is a qualitative study, with a documentary and bibliographic approach, combining literature review and analysis of CIMI reports. The results indicate the recurrence of violence such as physical aggression, femicide, territorial exploitation, and conditions analogous to slavery, affecting social, cultural, and spiritual dimensions of community life. It is concluded that Community Psychology, by adopting participatory, intercultural, and decolonial approaches, contributes to strengthening collective decision-making spaces, such as assemblies and dialogue circles, configuring itself as a practice of care, resistance, and cultural valorization, essential for confronting inequalities and promoting collective health.

Keywords: community psychology, indigenous peoples, structural violence, Collective care.

 

Psicología Comunitaria y cuidado colectivo frente a las violencias estructurales en territorios indígenas

RESUMEN. El estudio investiga las contribuciones de la Psicología Comunitaria en la promoción de la cohesión social, la salud colectiva y la valorización de los saberes ancestrales de los pueblos indígenas del Oeste de Santa Catarina, especialmente Guaraní y Kaingang, frente a las violencias estructurales e históricas documentadas por el Consejo Indigenista Misionero (CIMI) entre los años 2022 y 2024. El objetivo es analizar cómo las prácticas comunitarias pueden enfrentar tales violencias y fortalecer la autonomía y el protagonismo de las comunidades. Se trata de una investigación cualitativa, de carácter documental y bibliográfico, que articula la revisión de la literatura y el análisis de los informes del CIMI. Los resultados indican la recurrencia de violencias como agresiones físicas, feminicidios, explotación territorial y trabajo en condiciones análogas a la esclavitud, afectando dimensiones sociales, culturales y espirituales de las comunidades. Se concluye que la Psicología Comunitaria, al adoptar enfoques participativos, interculturales y decoloniales, contribuye al fortalecimiento de espacios colectivos de decisión, como asambleas y círculos de diálogo, configurándose como una práctica de cuidado, resistencia y valorización cultural, fundamental para el enfrentamiento de las desigualdades y la promoción de la salud colectiva.

Palabras clave: psicología comunitaria, pueblos indígenas, violencia estructural, cuidado colectivo.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Bruna Leticia Lemes de Lima, Universidade Comunitária da Região de Chapecó- Unochapecó

Estudante do curso de Psicologia da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó). (fase final) Integra o Grupo de Pesquisa SULEAR – Educação Intercultural e Pedagogias Decoloniais na América Latina, vinculado à Unochapecó, e a Rede Latinoamericana de Diálogos Decoloniais e Interculturais (REDYALA).

Cláudia Battestin, Universidade Comunitária da região de Chapecó – Unochapecó,Universidade Comunitária da região de Chapecó – Unochapecó

Doutora e Mestre em Educação pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) com período de Doutoramento na Universitat Jaume I - Espanha. Especialista em Educação Ambiental pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Licenciada em Filosofia e Pedagogia pela Universidade Comunitária da região de Chapecó (Unochapecó). Pós doutora em antropologia pela Universidade de Buenos Aires UBA com trabalho de campo em Jujuy e Salta.Lider do Grupo de pesquisa SULEAR:Educação Intercultural e Pedagogias Decoloniais na América Latina (Unochapecó). Integrande do Observatório da Diversidade do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte IFRN.Faz parte da Red Interuniversitaria Educación Superior y Pueblos Indígenas y Afrodescendientes en América Latina (RED ESIAL) da Universidad Nacional Tres de Febrero - UNTREF de Buenos Aires e da Rede latinoamericana de diálogos decoloniais e interculturais - Redyala.. Atua como apoiadora do conselho indigenista missionário CIMI Regional Sul realizando pasantias de estudos e trabalho em várias comunidades na américa latina. Tem várias publicações em periódicos e livros no Brasil e América Latina. Fez parte do Programa de Apoio ao Setor Educacional do Mercosul (Pasem) no Chaco Paraguaio, participou de uma pasantia no Projeto Comunidad de indagación na Universidade de Colima México. Atualmente trabalha como docente no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) e nas licenciaturas interculturais indígenas da Escola das Humanidades da Universidade Comunitária da Região de Chapecó Unochapecó. Áreas de conhecimento e interesse de pesquisa: Filosofia intercultural e éticas aplicadas. Educação ambiental, decolonial, intercultural. Povos originários da Abya Yala.

Referências

Aragão de Mesquita, M. (2021). Psicologia e eurocentrismo: Historicidade e práticas profissionais. Psicologia & Sociedade, 33(1), 45-58. Recuperado de https://www.scielo.br/j/pe/a/LJ9y6PFcHKHZTWxQVkhXpNb/

Bock, A. M. B., Gonçalves, M. da G. M., & Furtado, O. (Orgs.). (2010). Psicologia sócio-histórica: Uma perspectiva crítica em psicologia. São Paulo, SP: Cortez.

Burton, M. (2013). Psicologia da libertação: Uma práxis crítica construtiva. Estudos de Psicologia (Campinas), 30(2), 249-259. DOI: https://doi.org/10.1590/S0103-166X2013000200011

Campos, R. H. de F. (2023). A história da psicologia no Brasil e suas relações com o contexto sociocultural. In A. E. M. Ribeiro, G. M. Guimarães, M. V. do A. G. Santos, Y. P. A. Vieira, A. A. L. Ferreira, & L. E. P. da Fonseca (Orgs.), Boletim do Portal História da Psicologia 2 (pp. 16-79). Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia.

Conselho Indigenista Missionário. (2022). Relatório violência contra os povos indígenas no Brasil: Dados de 2021. Recuperado de https://cimi.org.br/

Conselho Indigenista Missionário. (2023). Relatório violência contra os povos indígenas no Brasil: Dados de 2022. Recuperado de https://cimi.org.br/

Conselho Indigenista Missionário. (2024). Relatório violência contra os povos indígenas no Brasil: Dados de 2023. Recuperado de https://cimi.org.br/

Dias, M. S. L. (2020). O legado de Martín-Baró: A questão da consciência latino-americana. Psicologia para América Latina, (33), 11-22. Recuperado de http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psilat/n33/a03n33.pdf

Freitas Campos, R. H. de, Brožek, J., & Massimi, M. (Orgs.). (2008). História da Psicologia: Pesquisa, formação, ensino. Rio de Janeiro, RJ: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais. DOI: https://doi.org/10.7476/9788599662830

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. (2025, 15 de maio). DNA revela um retrato mais detalhado da população brasileira. Revista Pesquisa FAPESP. Recuperado de https://revistapesquisa.fapesp.br/dna-revela-um-retrato-mais-detalhado-da-populacao-brasileira/

Garnelo, L., & Pontes, A. L. (2012). Saúde indígena: Uma introdução ao tema. Brasília, DF: MEC.

Krenak, A. (2019). Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo, SP: Companhia das Letras.

Lima, B. H., & Battestin, C. (2024). Pensar uma psicologia pautada na perspectiva decolonial. In D. Leal, M. M. M. Vieira, & O. L. Poli (Orgs.), Entre saberes e práticas: Olhares diversos à formação humana (pp. 174-194). Chapecó, SC: Argos.

Martín-Baró, I. (1998). Psicologia da libertação. Petrópolis, RJ: Vozes.

MBEMBE, Achille. Políticas da inimizade. Tradução de Marta Lança. Lisboa: Antígona, 2017. Disponível em: https://nenp.ufms.br/files/2024/09/Politicas-da-inimizade-Mbembe-.pdf. Acesso em: 16 jun. 2026.

Montero, M. (2004). Introducción a la psicología comunitaria: Desarrollo, conceptos y procesos. Buenos Aires, Argentina: Paidós.

Núñez, G. (2022). Nhande ayvu é da cor da terra: perspectivas indígenas guarani sobre etnogenocídio, raça, etnia e branquitude [Tese de doutorado, Universidade Federal de Santa Catarina]. Repositório Institucional da UFSC. https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/241036.

Ornelas, J. (2008). Psicologia comunitária. Lisboa, Portugal: Fim de Século.

Paim, J. S. (2018). Sistema Único de Saúde (SUS) aos 30 anos. Ciência & Saúde Coletiva, 23(6), 1723–1728. https://doi.org/10.1590/1413-81232018236.09172018 DOI: https://doi.org/10.1590/1413-81232018236.09172018

Perdigão, A. C. (2003). A ética do cuidado na intervenção comunitária e social: Os pressupostos filosóficos. Análise Psicológica, 21(4), 485-497. https://doi.org/10.14417/ap.8 DOI: https://doi.org/10.14417/ap.8

Quijano, A. (2000). Colonialidade do poder e classificação social. Journal of World-Systems Research, 6(2), 342-386. DOI: https://doi.org/10.5195/jwsr.2000.228

Quijano, A. (2005). Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In E. Lander (Org.), A colonialidade do saber: Eurocentrismo e ciências sociais: Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires, Argentina: CLACSO.

Sá, C. P. de. (2007). Sobre a psicologia social no Brasil, entre memórias históricas e pessoais. Psicologia & Sociedade, 19(3), 7-13. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-71822007000300002

Scarparo, H. B. K., & Guareschi, N. M. F. (2007). Psicologia social comunitária profissional. Psicologia & Sociedade, 19(spe2), 100-108. https://doi.org/10.1590/S0102-71822007000500025 DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-71822007000500025

Silva, E. C. A. (2018). Povos indígenas e o direito à terra na realidade brasileira. Serviço Social & Sociedade, (133), 480-500. https://doi.org/10.1590/0101-6628.155 DOI: https://doi.org/10.1590/0101-6628.155

Soares, A. R. (2010). A Psicologia no Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão, 30(spe), 8-41. DOI: https://doi.org/10.1590/S1414-98932010000500002

TURRIANI, Anna (coord.). Clínicas do testemunho nas margens. São Paulo: Instituto de Estudos da Religião (ISER).

Downloads

Publicado

2026-07-10

Como Citar

Lemes de Lima, B. L., & Battestin, C. (2026). Psicologia Comunitária e cuidado coletivo diante das violências estruturais em territórios indígenas. Revista Brasileira De Educação Do Campo, 11, e20620. https://doi.org/10.70860/ufnt.rbec.e20620

Edição

Seção

Dossiê: Saúde Mental em Comunidades Educativas Rurais, Ribeirinhas, Quilombolas e Indígenas: desafios e possibilidades